Crítica de Nós! As duas faces da mesma América

Érico Andrade
ericoandrade@gmail.com
Filósofo, psicanalista, professor da Universidade Federal de Pernambuco
Portanto assim diz o Senhor:
eis que trarei o mal sobre eles,
de que não poderão escapar;
e clamarão a mim,
mas eu não os ouvirei
11.11 Jeremias
Bíblia
O
exercício da metáfora não é trivial. Menos ainda quando se usa de um
gênero tanto clássico quanto fortemente explorado como o terror. Com Nós
Jordan Peele tornou esse exercício ainda mais complexo em relação ao
seu último filme: Corra!. A temática do racismo é ampliada em Nós para
uma crítica mordaz aos Estados Unidos. Assim, todo aparato estético dos
filmes de terror – dominado com maestria pelo diretor – é mobilizado
para mostrar o quanto terrificante é a realidade e não a ficção.
Nos
túneis subterrâneos dos USA reside a história que não cala. Não se
silencia. Aquilo que não se fecha. O que a personagem principal Adelaide
(interpretada por Lupita Nyong’o), ainda criança, vê, é aquilo que a
sensibilidade de quem não foi completamente colonizado pelo capitalismo
permite acessar: a miséria humana que está tanto no subterrâneo como na
superfície. Se se pode dizer o capitalismo não produz a miséria humana,
podemos dizer que pelo menos ele a alimenta. Mais grave: vive dela.
A
cena em que Adelaide se “perde” no parque, que é reproduzida mais
próximo do final do filme, longe de ser um simples flashback, é a fusão,
no interior do filme, da realidade com a ficção porque as coaduna num
mesmo registro de terror. Nem na ficção, nem na realidade existe amparo.
Não se pode escapar do desamparo no capitalismo. Essa é fusão que
traumatiza a criança. É a consciência da onipresença da atmosfera de
terror, assim como onipresente é o capitalismo que está tanto na
superfície quanto na base das relações humanas.
Os quinze minutos
em que ela permanece desaparecida com a camisa de Thriller marca, por
meio da referência ao clipe de M. Jackson, o início do suspense. Ela
ganha a camisa do pai, depois que ele se esforça num jogo no parque para
ser o vencedor. Numa prova para si mesmo que ele poderia ter sido
aquele grande jogador de baseball. Trata-se de uma clara alusão ao
desejo por conquista do capitalismo que impregna todas as pessoas mesmo
no momento em que elas estão se divertindo num parque feito para vender
divertimento. A diversão, o filme ressalta, no capitalismo é a cópia do
que ele produz sempre: competição.
O tempo dilatado, que é a
passagem de Adelaide para a vida adulta, é apresentado numa continuação
em que o roteiro se encarrega de costurar por meio da apresentação da
família de Adelaide como uma cópia da sua família nuclear (composta por
ela, o seu pai e a sua mãe). A atual família de Adelaide é aparentemente
tranquila, mas obviamente marcada pelos valores capitalistas. Basta ver
o comentário, no meio de tantos outros, invejoso de Gabe (marido de
Adelaide e uma mímesis do seu pai num claro padrão de repetição) quanto à
lancha do seu amigo. São as famílias, apenas simples famílias, que
formam o terror. Elas formam o sistema que somos nós. É isso que o
diretor nos faz perceber quando aparece a cena de uma família no jardim
da propriedade da família Wilson – propriedade que é frisada por Gabe.
Aliás, o direito à propriedade é evocado por Gabe. Em vão. O terror já
está instalado. Ele é o espelho da família. É a própria família, claro.
Por isso, é que os membros da família são perseguidos por seus espelhos.
Cada um tem que dar conta do seu fantasma.
Essa lógica é também
aplicada à família branca que é dizimada pelos seus fantasmas, por sua
cópia, por ela mesma; para dizer mais diretamente. Mas, não podemos
deixar de sublinhar que a cena em que a cópia fantasmática da personagem
Kitty fere o próprio rosto, exatamente no lugar em que Kitty tinha
feito a sua plástica, é para fazer do sangue uma forma metafórica de
questionar o que realmente deve importar. A morte da personagem Josh e
de suas filhas gêmeas, na sua super casa com gerador, segue a mesma
toada. A crítica mais radical ao capitalismo é o fantasma de Josh morrer
na lancha que era para o Josh real o seu símbolo máximo de ostentação.
Mortos no interior do seu luxo. Todos mortos tanto os fantasmas como os
“vivos”. Todos mortos porque consumidos pelo sistema que eles acreditam
consumir.
Mas Jordan Peele não descuida da temática do racismo.
Além da associação precisa da trilha sonora (composta de músicas bem
politizadas quanto à temática do racismo) com algumas cenas, como a que
se desenrola na casa da família branca Tyler, em que os negros matam os
fantasmas brancos, que os perseguem como diz a música, é por meio de uma
referência ao movimento Hands Across America (realizado em 1986 com
fins de ajudar a combater a fome na África) que o diretor constrói mais
uma poderosa metáfora.
O abraço da América é reproduzido, desta
feita, com pessoas uniformizadas de laranja (cor usada com frequência
nos uniformes das prisões americanas) e, portanto, despessoalizadas e
que unem as mãos como zumbis induzidos pelo sistema do qual são
prisioneiras. Elas procedem por uma espécie de inércia e tal como os
zumbis operam sem saber o que estão fazendo. São instrumentos do
Marketing. Estão ao seu serviço como zumbis. O filme Nós mostra que
mesmo quando o capitalismo resolve “ajudar” a parte mais explorada por
ele é para produzir mais fantasmas. O ponto forte do filme é nos faz ver
que esse fantasma somos Nós. Os vivos que atravessam a vida como
prisioneiros do sistema. Portanto, em certo sentido; mortos.
Comentários
Postar um comentário