HOMO UNIVERSALLIS






A Ciência em "apartheid" público?


por Marcos Luna

"A verdade é filha do tempo e não da autoridade" (Francis Bacon)

Desde o seu desenlace no século XVII com o ativismo de Sir Francis Bacon na Inglaterra, o método científico como processo social e histórico sempre refletiu sobre a problemática do conhecimento. "Saber é poder; a verdade sobrevive mais ao erro do que a confusão, proclamava o lord-filósofo.

O governo no exercício do "seus podres poderes" na educação superior do Brasil, vem decretando medidas igualmente restritivas às previdenciárias e às trabalhistas, aprovadas por decretos anacrônicos. O desejado desde o período neoliberal com FHC, a privatização do acesso às universidades federais expressa o conservadorismo elitista predominando melífluamente; o que mobilizará reações nas universidades públicas - fonte do pensamento político democrático - nos anos que se seguirem a esta deslegitimação do poder popular.

A ciência exige paradigmas estáveis e transitórios; parâmetros teórico-práticos evolutivos em perspectiva até a utopia de que os  resultados podem fazer o mundo mais acolhedor para a humanidade. 

A observância de que os cursos de pós-graduação têm sido associados a agencias de fomento para pesquisas,  radicalizando os interesses das indústrias nacionais, ou não, tem impactado na definição das prioridades das ciências, e suas conexões com as realidades regional e local daquelas instituições.

O orçamento tem crescido com investimentos produzindo mais estudos e mais patentes, gerando um campo de atividades globalizadas. Mas esta expansão ao longo dos anos também esta suscitando restrições."Talvez estejamos numa empreitada subversiva, não revolucionaria: a construção da república dos mais desiguais desde as universidades?" refletiu G.Belluzzo. Contrapondo os princípios mercadológicos aos interesses do estado-nação e a distribuição das riquezas.

A competitividade implicando em controles de avaliação provoca a analise sistematizada da produção dos cientistas e seus laboratórios. Academia sempre ciosa da autonomia, começa a "reagir" aos ditames do mercado com seus interesses em dividendos e lucros. "A justiça como equidade deve levar em conta não apenas os direitos sociais da empresa mas também a necessidade do individuo cidadão", defendeu John Rawls. Nada obstante, estamos "comercializando a ciência" r favorecendo a produção do "conhecimento em serie"?!

A reclamada receita para a ciência de fronteira sintonizada na realidade brasileira, não alcançará o orçamento necessário porque esta defasado nas universidades publicas desde sempre. Mais uma injustiça social porque esta impropriedade é o desfazimento do mister da ciência, igualmente excluindo as mentes científicas. A ciência num país em desenvolvimento deve enfrentar os desafios das desigualdades, o que demanda abordagens multidisciplinares para superar a fome, a miséria, impondo uma agenda pública autêntica.

"Somente a autonomia permitiria às universidades atingirem seus mais altos propósitos"(F. Humboldt).

Marcos Luna é médico e escritor, pós-graduado na Harvard University e UFBA


Os Conselhos de Medicina: conflitos (im) pacificáveis?!


por Marcos Luna
  
"Este mundo é o campo de batalha de seres atormentados e agonizantes que continuam a existir apenas devorando-se uns aos outros” - Schopenhauer 

Na antevéspera das eleições para os Conselhos de Medicina no Brasil, retorno ao século XVI, quando Montaigne elaborou uma síntese sobre o viver, pois a dignidade era atributo a ser conquistado pelas classes ordinárias: o ser humano avaliará o verdadeiro valor de qualquer coisa de acordo a utilidade em sua vida; o que lhe faz sentir melhor merece ser compreendido. Nosso país sofrerá induvidosos conflitos nas suas representações políticas, porque interesses de classes têm desqualificado a legitimidade dos governos e instituições.
Nestas circunstâncias, inserem a corporação médica e  suas entidades associativas. Como nunca, nos anos  recentes, os Conselhos de Medicina estão revelando fraturas internas com discrepâncias político ideológicas entre seus dirigentes,  jurisdicionados e consequentemente com a sociedade  extramuros daquelas  autarquias.


“A história humana é um processo legítimo de despertar da consciência e materialização da razão” (Hegel). 

A relevância societária dos médicos lhes confere, o protagonismo na saúde pública e privada revolvidas por mazelas crônicas, hospitais em débâcle administrativo pelo mercantilismo das seguradoras, ademais dos orçamentos deficitários. 

Avolumam-se os rumores de que o conservadorismo radicalizará ainda mais nas novas diretorias dos conselhos, se não houver o contraponto das lideranças médicas mais sintonizadas com o mal-estar social no país, precisamente na medicina assistencial. 


Em destaque a proposta que justifica e implementa o SUS com o atendimento da população rural e periféricas através do programa de atenção básica onde os esculápios nativos , ou não, foram patrocinados pelo governo federal, desde os idos de 2012, provocou reação neoliberal e xenófoba, reservando mercado para especialidades em consonância com os reclamos das elites empresariais.

A ambivalência dos médicos se achando liberais, alimenta o preconceito de classe - nem sempre mediado pelas entidades, o que coaduna a ideologia proto-fascista na sociedade capitalista excludente. 
“A natureza humana é assim: as pessoas tendem a pensar em sua posição quando descrevem um mundo melhor,  percebam ou não. Esse preconceito distorce o pensamento político “ (Warburton). 


O Brasil precisará de mais médicos generalistas, deverá incentivar a sua formação, acolhendo aqueles sem o estado de bem-estar-social, como refletira o escritor francês. Essa competência apreendida e exercida deslocará o conservadorismo ideológico da corporação médica - desde sempre muito prevalente nas suas elites acadêmicas e profissionais - em favor de uma medicina integral, preventiva e com efetividade.

Marcos Luna médico pós-graduado na Harvard Medical School e UFBA 



       Escola Médica e Inteligência Artificial: medicina sem doutor (?)


por Marcos Luna
"Quais são, afinal, as verdades do homem? São os erros irrefutáveis do homem". Nietzsche

Em recente fórum sobre a problemática da escalada de escolas médicas no Brasil - hoje são mais de trezentos e vinte! - a Academia de Medicina da Bahia promoveu palestras e debates muito proficientes, mas temerosos, sobre o futuro próximo da prática da medicina no país e no mundo. O diagnóstico das causalidades sócio-políticas e históricas daquela proliferação incontrolável de instituições "fabricantes" de profissionais "médicos" foi de novo reconhecido; debalde todos os reclamos das entidades médicas - e até de setores governamentais - nos últimos dez ou mais anos.

" A verdade sai do poço, vem indagar quem se acha à borda" (Machado de Assis).

A mercê dos impulsos mercadológicos e interesses maiores de governos patrocinados por empresários do setor - "médicos" inclusive - assombrou as autoridade medicas e educacionais um fantasma: o ato médico sem ética humanística, sem compromisso com a arte da medicina embasada em ciência e evidencias sociais. Os números revelados e galopantes dos erros médicos culposos, com a imprudência de procedimentos fúteis lesivos porque atendem aos preceitos da prática balizada na mais-valia compensatória dos honorários médicos aviltados por tabelas defasadas detratoras do SUS e dos seguros privados de saúde.

"O pobre é constrangido a regatear a sua dor. O rico exibe a sua por inteiro" (Baudelaire).

Numa brevíssima intervenção, salientei que o capitalismo financeiro aliado aos determinantes comerciais da indústria tecnológica no mister médico, estariam no "centro nervoso" desta aparentemente incongruente disseminação de escolas médicas.

"É a economia meu caro, é a economia meu caro!" Logo o ato médico prescindirá do médico - humano: a inteligência artificial e as próteses diagnostico- terapêuticas serão disponibilizadas em escala comercial urbi et orbi.

"Existem poucas coisas que nos desejaríamos de forma intensa se soubéssemos realmente o que queremos" (La Rochefocauld).

Estamos chegando ao "admirável mundo novo" na medicina (?). Sem vaticínios ou niilismos, encerraria estas reflexões de modo tempestivo, consternado e algo intrigado: aquele cidadão comum que contemplava as viagens espaciais à lua, nos idos dos anos sessenta, e se perguntava ainda incrédulo das suas utilidades. Hoje em dia os laptops e os smartphones estão em suas mãos; anulando a sua privacidade e lançando a sua voz ou gritos de êxtase e dores para todo o planeta ouvir...  O mundo ainda depende das iniciativas dos seres humanos (?). As máquinas inteligentes já estão na sala de jantar. Até quando ainda teremos autonomia sobre os nossos destinos...?!  A ver.


Marcos Luna é médico e escritor, pós-graduado na Harvard Medical School e UFBA
doutor. luna@gmail.com

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