ENSAIO Fascismo na sociedade sem classes: uma interpretação do bolsonarismo


Imagem por Performance Cegos/Mídia Ninjaa
hENRIQUE cOSTA 
Passado algum tempo do início do atual governo, é o caso de se perguntar o que teria levado 57,8 milhões de pessoas vivendo nesses escombros dominados por milícias a acelerar o fim da História, votando em Jair Bolsonaro e sua Tropa de Elite composta por figuras como Paulo Guedes, Sérgio Moro e Ricardo Vélez. O espírito que move a corrida para o abismo seria apenas o Brasil tentando “ajeitar as coisas” mais uma vez?
A certa altura do romance Estorvo, o narrador-protagonista sugere querer visitar a mãe, mas desiste, acreditando que esta poderia ter caído no sono “desinteressada das novas coleções” e estaria a sonhar, talvez com o marido falecido. O cinismo e a verve aguda e amoral do personagem lhe permitem refletir sobre os sonhos dos velhos com esclarecimento de gerontologista astrólogo. Na tese que apresenta, o acervo de sonhos dos velhos, depois de certa idade, se esgota, e eles começam a se repetir. “Mas como nada é totalmente péssimo”, diz, “a memória de um velho também enfraquece, e ele já não tem certeza se sonhou aquele sonho ou não”. E se algo desastroso vier pela frente que ele eventualmente já tenha sonhado, “um precipício, um incêndio, um desastre de avião, a morte de todos os parentes, uma perseguição no labirinto, um cataclismo que a gente acorda sobressaltado com falta de ar”, se levanta com a frase na ponta da língua: “Eu não avisei?”. Não tendo certeza se foi sonho ou realidade, volta a dormir e emenda em outro. Já o personagem narrador do livro, que termina esfaqueado, imundo e desfigurado, física e moralmente, espera que alguém – sua irmã rica, a ex-mulher ou o amigo intelectual – lhe dê abrigo por mais uma temporada até que ele possa “ajeitar as coisas”. 




Imagem por Performance Cegos/Mídia Ninja

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

MINO CARTA O Lula que a Folha escondeu

NASSIF: Paulo Guedes, a versão PhD de Jair Bolsonaro

AZENHA: UMA ANÁLISE CRÍTICA DA REFORMA DA PREVIDÊNCIA